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ANO I   -  DEZEMBRO/93  -  Nº 01

 

APRESENTAÇÃO DO PRIMEIRO NÚMERO DE VEREDAS

 

Amigos da Psicanálise,

Boa Noite.

            Nós, os que compomos TRAÇO FREUDIANO VEREDAS LACANIANAS, os convidamos para lhes apresentar hoje um dos produtos do nosso trabalho, a revista VEREDAS. Somos mais ou menos vinte estudiosos de Freud e de Lacan, incluindo seis psicanalistas, além de uma costumeira freqüência flutuante, mantendo sempre a indagação sobre como faz alguém para autorizar-se analista e qual é o nosso papel  e nossa responsabilidade em relação a tal formação.

            A partir do início do ano passado começamos a nos reunir para lermos Lacan. E, como ler Lacan significa necessariamente retornar de modo perene a Freud, retomamos sua doutrina a partir do relato que fez da análise dos restos dos seus próprios sonhos. Constituimos então mais um grupo de estudos. E foi assim que começamos e prosseguimos.

            Sem sermos ecléticos, procuramos ser ecumênicos, ouvindo analistas e estudiosos de várias tendências, pois reconhecemos analistas não a partir de seitas, mas da escuta do inconsciente, além do reconhecimento natural do quanto a Psicanálise depende da Cultura para referenciar-se.

            O que parecia ser uma reunião desprentenciosa entre alguns poucos tornou-se, num átimo, uma troça  alegre com o apelido simpático e carinhoso de Grêmio Recreativo Lítero-Artístico-Musical-Psicanalítico Flor de Santana. E etílico, além de tabagista, com bebidas e fumo animando nossas reuniões. O recreio durou um bom tempo, mas, como nem tudo é recreação, esta foi cedendo lugar à sobriedade, ainda que sempre bem-humorada, diante da alteridade dos textos lidos e de nossa própria palavra nos debates. Afinal, Lacan foi um sujeito de muito bom humor, mas não brincava em serviço, e quem o estuda sabe o quanto é preciso "queimar as pestanas". Pareceu-nos, contudo, desde o início, desejarmos um ensino sem docência, livre da tirania e da vaidade dos mestres e da subserviência dos tolos. Talvez  seja esta a nossa pretensa vaidade: um ensino sem docência, sem aspirações acadêmicas, o aprendermos lendo e conversando.

            Há algo a ser frisado enquanto insubstituível: a passagem por longas análises dos psicanalistas reunidos neste projeto, acrescida pela experiência e convívio cotidiano com a clínica. Esperamos que nossa própria análise e o atendimento que fazemos não sirvam à inflação do ego, e que tenhamos convivido com a morte em suas dimensões possíveis na fala de nossa história e em nossos desejos, mas que sintamo-nos animados, cheios de vitalidade, em decorrência do limite da própria vida, tal como enunciou Pindaro: "Ó minha alma, não aspires à vida imortal, mas esgota o campo do possível".

            Daí VEREDAS ser também uma expressão de nossa luta de vida-e-morte, simbolizando-a na escrita. Há a morte física e a cultural. A morte cultural traduz-se no analfabetismo social, desejo realizado perversamente por nós através de nossos governantes. Quanto a nós, se reagimos à ameaça de nosso próprio analfabetismo literalizando a letra, procuramos retardar a nossa própria morte com cada letra que traçamos, prolongando nossa existência na memória dos outros através da escrita. Traçamos letras; são traços que delineiam as letras, a partir de um traço, o unário, como nos ensinou Freud em "Psicologia das Massas e Análise do Eu", e frisado por Lacan em "A Identificação".

            Se o nosso "grêmio" original já portava o nome TRAÇO FREUDIANO, devia-se à insistência da repetição da letra que se quer escrita para dar forma ao traço originário. O traço primeiro foi a marca com a qual os vivos assinalaram a morte do outro, sendo a letra a elaboração de uma antevisão imaginária, através do semelhante, da nossa própria morte. Escrevemos sem cessar justamente porque não contemos tal inscrição em nosso inconsciente. Será que é por isso que dizem ser necessário plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, pelo menos, para simbolizar nossa passagem pela vida? E o que pode nos ensinar a Psicanálise quanto a isto? Que nada, nem mesmo tais coisas, apreenderão a letra que falta, a letra que Lacan designou a, resto do que origina o desejo; que são marcas simbólicas a indagar sobre a paternidade e o desejo de morte do pai; que não há relação lógica possível que responda ao enigma da vida e da morte; que não há resposta única à indagação sexual sobre o ser filho ou filha enquanto sexualmente diferentes. Ser filho, condição universal, é ser portador de uma indagação da e à mãe sobre o pai, e o que quer uma mulher mãe ou não-mãe; ser filho é estar sempre no lugar da falta, o falo; é ser atravessado pelo desejo da mãe ao redor do seu próprio pai, circuito de uma repetição, mais que reprodução, que pode tornar-se estéril ou profícua.

            O TRAÇO FREUDIANO  impeliu-nos por tais VEREDAS, e se as denominamos LACANIANAS foi porque procuramos seguir certas trilhas abertas por Lacan. E hoje apresentamos VEREDAS, nossa árvore, nossa filha, nosso livro. Da filiação passamos à paternidade no cultivo das letras. Tornamo-nos Pai, permanecendo filhos. Gestação prolongada, não de nove, mas por dezenove meses. Seria impossível listar todos aqueles que permitiram seu nascimento. Começamos por Seminários de Leitura, e como seminário é uma palavra latina figurada para designar escola, sua origem correspondendo a um "viveiro de plantas", "sementeira", e seu radical sendo o mesmo de sêmem, "semente", aqui neste local não só se mente muito, mas também se procura algo verdadeiro e o cultivamos. A semente que germinou foi cultivada por todos aqueles que participam dos nossos seminários das quintas-feiras, e o que os leitores encontrarão como abertura deste periódico é o texto de alguém que começou conosco a ler Lacan pela primeira vez. Outros virão, por certo, nisto apostamos e fazemos fé. Quantos, impossível sabê-lo. Nos parece que nenhum se equivale a muitos, sendo ambas as situações inviabilizadoras de projetos autênticos. Observamos que, dentre as várias modalidades historicamente constatáveis, já consagradas, existentes no movimento psicanalítico lacaniano, a formação de (e em) pequenos grupos de estudos nos parece o modo mais próximo ao espírito lacaniano da proposição dos cartéis feita pelo próprio Lacan.

            Finalmente resta frisar nossa filiação, certamente conhecida por todos vocês, e assim como há Um Pai, há a sua insuficiência enquanto Um, sendo este reportado na fala em pelo menos três dimensões: o Real, o Simbólico e o Imaginário. Assim é que temos Freud por Pai, Pai de toda a horda psicanalítica, o Pai da Lei, morto nesse mês de Setembro, no dia 13, data deste escrito [ Lapso referente à morte do pai, pois a data correta da morte de Freud é a de 23 de Setembro de 1939]; há o pai Lacan, patriarca de mais de uma família, aquele que "autoriza" a prática da análise leiga proposta por Freud, indicando o retorno perene ao Primeiro. Neles reconhecemos nossa origem. Mas há ainda aquele que particularizou de forma singular a transmissão da Psicanálise aqui entre nós, o outro Jacques, mais próximo, e quer isto lhe agrade ou não, agora, em nossa maturidade, reafirmando nossa filiação, adultos, pais também, o cercaremos com nossas atenções filiais, nem que seja para tão somente registrarmos nossa linhagem. Ao Jacques Laberge dedicamos o primeiro exemplar de nossa VEREDAS.

            E, mais ainda, na repetição, diferenciada, indicando nossas origens no seu "Projeto" primeiro, retomaremos a partir da próxima semana nossos estudos sobre Literatura e Lendas do Brasil.

            A primeira revista, TRAÇO, convalece da sina da primogenitura, que é a de ser devorada. Esperamos que VEREDAS, mais feminina, seja recebida com mais suavidade, sobreviva e procrie. VEREDAS é nossa "ata de fundação", renovável a cada edição.

            Passo agora a palavra aos convidados para uma apresentação de leitura crítico-literária de VEREDAS: Ronaldo Brito, antigo companheiro de leituras de nossas lendas e de nossa Literatura, que falará primeiro, seguido por Fernando da Mota Lima, alguém que conhece na pele o que seja produzir uma revista, pois junto a um outro amigo aqui presente, Denis Antônio Bernardes, já confirmado para os comentários sobre o próximo número de VEREDAS, em preparação, ambos certa feita lançaram CENOURA, a qual em muito nos inspirou, o que demonstra haver sementes que germinam. Ronaldo, Fernando e Denis simbolizam nosso desejo por diálogo com a Literatura, a Arte e a História, pelo menos. A seguir poderemos todos conversar sobre o projeto que nos reuniu hoje aqui.

 

Paulo Roberto Medeiros

Recife, 16 de Setembro de 1993.

 

 

 

 

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